Portugal não tem um problema de investimento. Tem um problema de decisão. 

Ao longo dos últimos meses tenho escrito sobre temas aparentemente diferentes. Data centers em Sines. A nova economia do espaço. Inteligência artificial. Nearshoring. Habitação. Logística. Energia. Indústria. Defesa. À primeira vista parecem assuntos distintos, cada um com os seus desafios e oportunidades. Mas quanto mais acompanho estes setores, mais chego sempre à mesma conclusão: Portugal já não tem falta de investimento. Tem falta de capacidade para decidir. 
Os números apresentados recentemente pela Associação Portuguesa de Energias Renováveis (APREN), num estudo desenvolvido pela Nova SBE e pela Lobo Carmona, são talvez o exemplo mais evidente desta realidade. Existem cerca de 60 mil milhões de euros em intenções de investimento em energias renováveis que continuam bloqueados. Não porque falte financiamento. Não porque a tecnologia não exista. Não porque o mercado não queira investir. Mas porque os processos de licenciamento, a capacidade da rede elétrica e a ausência de decisões impedem esses projetos de avançar. 
Segundo o estudo, cada ano de atraso custa ao Estado cerca de 1,7 mil milhões de euros em receitas fiscais que nunca chegam a entrar nos cofres públicos. Se os bloqueios fossem removidos, a contribuição fiscal anual do setor mais do que duplicaria, podendo ultrapassar os 2,8 mil milhões de euros. Não estamos, portanto, perante uma discussão ambiental. Estamos perante uma questão de competitividade económica e de gestão pública. 
O mais curioso é que este problema não é exclusivo da energia. 
Quando escrevo sobre habitação encontro exatamente o mesmo obstáculo. O país precisa de construir mais casas, mas continua preso entre licenciamentos demorados, planos diretores municipais desatualizados, pareceres sucessivos, entidades que raramente decidem em conjunto e uma enorme dificuldade em transformar solo disponível em habitação efetiva. 
Quando escrevo sobre grandes investimentos industriais, volto a encontrar o mesmo cenário. Empresas internacionais querem instalar-se em Portugal, mas esperam anos por ligações elétricas, por licenças ambientais ou por decisões administrativas. O mesmo acontece com projetos logísticos, centros de dados, fábricas ou infraestruturas estratégicas. 
O problema muda de setor. 
A origem mantém-se exatamente igual. 
Durante muitos anos acreditámos que Portugal precisava sobretudo de atrair investimento. Hoje percebemos que essa fase foi, em grande parte, ultrapassada. O investimento existe. Existe interesse internacional. Existem fundos disponíveis. Existem empresas que querem crescer cá. Existem empresários portugueses preparados para investir. Existem universidades que produzem conhecimento e talento altamente qualificado. 
Aquilo que continua a faltar é um Estado capaz de acompanhar esta nova velocidade da economia. 
E aqui importa fazer uma distinção importante. Não estou a defender menos regras nem menos exigência ambiental. Também não acredito que acelerar processos signifique aprovar tudo indiscriminadamente. Um país moderno precisa de escrutínio, transparência e sustentabilidade. 
O problema é outro. 
O problema surge quando um processo demora tanto tempo que a oportunidade desaparece antes da decisão chegar. 
Vivemos num mundo onde o investimento internacional escolhe países que oferecem previsibilidade. As empresas conseguem aceitar regras rigorosas. O que dificilmente conseguem aceitar é a incerteza permanente. Saber que um projeto pode demorar dois, três ou cinco anos apenas para reunir autorizações transforma qualquer decisão de investimento num exercício de elevado risco. 
Entretanto, outros países avançam. 
E Portugal volta a perguntar porque perdeu mais uma oportunidade. 
O mais paradoxal é que o próprio estudo demonstra aquilo que as energias renováveis já representam para a economia nacional. Em 2024, o setor contribuiu com mais de 5,3 mil milhões de euros para o PIB, sustentou mais de 62 mil postos de trabalho, evitou 2,1 mil milhões de euros em importações de combustíveis fósseis e permitiu uma poupança média de 636 euros por agregado familiar e superior a 63 mil euros por empresa, graças ao impacto da produção renovável no preço da eletricidade. 
Ou seja, já temos provas concretas dos benefícios económicos. 
E mesmo assim continuamos a bloquear o seu crescimento. 
Ainda mais impressionante é verificar que Portugal ocupa hoje uma posição de liderança europeia na incorporação de energias renováveis. Cerca de 80% da eletricidade produzida no país tem origem em fontes renováveis e, durante o primeiro semestre deste ano, houve praticamente um mês inteiro em que essa produção foi suficiente para assegurar todo o consumo nacional. 
Poucos países conseguem apresentar estes resultados. 
Mas poucos países conseguem também desperdiçar tantas oportunidades para os transformar em vantagem competitiva. 
Tenho defendido frequentemente que o futuro económico de Portugal passará por setores como os centros de dados, a inteligência artificial, a indústria tecnológica, a produção de hidrogénio verde, a economia espacial ou a nova indústria ligada à defesa. Todos eles têm uma característica comum: consomem enormes quantidades de energia e procuram países capazes de garantir eletricidade limpa, estável e competitiva. 
Portugal reúne essas condições. 
Mas depois falha naquilo que deveria ser mais simples: permitir que os projetos avancem. 
E talvez seja aqui que devamos fazer alguma autocrítica enquanto país. 
Durante décadas habituámo-nos a dizer que Portugal era um país com poucos recursos naturais. Hoje essa narrativa deixou de fazer sentido. Temos sol, vento, capacidade tecnológica, localização atlântica privilegiada, talento reconhecido internacionalmente, estabilidade política, infraestruturas modernas e crescente capacidade científica. 
O problema já não é aquilo que temos. 
É aquilo que fazemos com aquilo que temos. 
Infelizmente, continuamos demasiado presos a uma cultura administrativa construída para evitar decisões, em vez de facilitar boas decisões. Multiplicámos entidades, pareceres, competências partilhadas e procedimentos sucessivos. No final, raramente existe um verdadeiro responsável pelo resultado. 
Quando tudo depende de todos, acaba muitas vezes por não depender de ninguém. 
É precisamente por isso que considero que Portugal precisa menos de anunciar novas estratégias e mais de executar aquelas que já existem. O Plano Nacional Energia e Clima está definido. As metas europeias são conhecidas. Os investidores estão identificados. A tecnologia existe. O financiamento também. 
Aquilo que falta é transformar intenção em realidade. 
Não é apenas uma questão económica. 
É uma questão de confiança. 
Cada projeto que fica bloqueado durante anos envia uma mensagem ao mercado internacional. Cada oportunidade perdida reduz a credibilidade do país. Cada decisão adiada significa emprego que não é criado, receita fiscal que não entra, inovação que não acontece e competitividade que se perde. 
Talvez tenha chegado o momento de mudarmos a pergunta. 
Em vez de continuarmos a perguntar porque Portugal cresce menos do que poderia, talvez devêssemos perguntar quantas oportunidades escolhemos desperdiçar antes de tomar uma decisão. 
Porque os números são claros. 
Portugal já não tem um problema de investimento. 
Tem um problema de decisão. 
E enquanto não resolvermos esse problema, continuaremos a assistir ao mesmo paradoxo: um país cheio de oportunidades que demora demasiado tempo a aproveitá-las. 
 
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