O próximo ciclo do imobiliário português não será impulsionado pelo turismo 

Durante muitos anos, o crescimento do mercado imobiliário português esteve intimamente ligado ao turismo internacional. O aumento das viagens, do alojamento local, da procura por segundas residências e da chegada de reformados estrangeiros ajudaram a valorizar ativos em praticamente todo o país. 
Mas esse ciclo começa a dar sinais de maturidade. 
Hoje, as grandes oportunidades para o imobiliário podem estar a nascer noutro lugar. 
O mais recente estudo da Savills sobre a nova geografia da produção mostra que as empresas estão a reorganizar as suas cadeias de abastecimento e a aproximar a produção dos mercados consumidores. A competitividade deixou de depender apenas dos custos. Passou a depender da estabilidade, da energia disponível, das infraestruturas, da conectividade digital e da capacidade de execução. 
Portugal reúne hoje praticamente todos esses fatores. 
E isso poderá mudar profundamente o mercado imobiliário. 
Quando falamos de centros de dados, fábricas tecnológicas, polos logísticos ou empresas de inteligência artificial, não estamos apenas a falar de investimento industrial. Estamos a falar de milhares de trabalhadores qualificados, novos escritórios, parques empresariais, habitação, escolas internacionais, hotéis, comércio, restauração e serviços. 
O exemplo de Sines é talvez o mais evidente. O desenvolvimento do Start Campus, dos novos cabos submarinos e dos projetos ligados à energia renovável está a transformar uma cidade tradicionalmente industrial num novo polo tecnológico europeu. A necessidade de habitação, equipamentos urbanos e infraestruturas cresce ao mesmo ritmo que chegam novos investimentos. 
Mas Sines não será caso único. 
O mesmo fenómeno poderá verificar-se em vários pontos do país onde existam boas ligações logísticas, disponibilidade energética e capacidade para acolher novas atividades económicas. 
Esta transformação representa também uma mudança importante para o próprio mercado imobiliário. 
Durante muito tempo, grande parte da procura internacional incidiu sobre habitação de lazer ou segunda residência. O próximo ciclo poderá ser impulsionado por pessoas que vêm trabalhar, empreender, investigar ou gerir operações internacionais instaladas em Portugal. 
Isso torna o mercado mais sustentável. 
A valorização deixa de depender exclusivamente do turismo ou da procura sazonal e passa a assentar na criação de emprego, na instalação de empresas e no crescimento da economia real. 
Naturalmente, isso exigirá respostas diferentes. Mais oferta habitacional, processos de licenciamento mais rápidos, melhor planeamento urbano e maior capacidade das autarquias para acompanhar o investimento privado. 
O estudo da Savills deixa uma mensagem importante: a nova economia está a escolher países que oferecem estabilidade, talento e capacidade de execução. 
Portugal parece reunir essas condições. 
O desafio passa agora por garantir que o mercado imobiliário acompanha essa transformação. 
Porque o próximo grande impulso do imobiliário português poderá já não vir dos turistas. 
Poderá vir das empresas que escolhem Portugal para produzir, inovar e crescer. 
 
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