A verdadeira mudança em Portugal não está no crescimento. Está na resistência.
Quando surgem projeções económicas, a atenção costuma concentrar-se numa única pergunta: vamos crescer mais ou menos?
É uma reação natural. Afinal, o crescimento económico continua a ser um dos principais indicadores utilizados para medir o desempenho de um país. Mas por vezes essa obsessão pelos números esconde algo mais importante. Uma economia não se mede apenas pela velocidade a que cresce. Mede-se também pela forma como resiste, pela sua capacidade de adaptação e pela preparação que demonstra perante os choques que inevitavelmente surgem.
Ao ler o mais recente Boletim Económico do Banco de Portugal, foi precisamente essa a conclusão que retirei.
As projeções apontam para um crescimento de 1,8% em 2026, uma desaceleração para 1,6% em 2027 e um regresso aos 1,8% em 2028. Não são números extraordinários. Não irão gerar manchetes sobre milagres económicos nem alimentar discursos triunfalistas. Mas talvez estejamos a olhar para a questão errada.
A pergunta relevante não é porque cresce Portugal apenas 1,8%.
A pergunta relevante é como consegue Portugal continuar a crescer num dos contextos internacionais mais complexos das últimas décadas.
O mundo que nos rodeia está longe de ser estável.
A guerra no Médio Oriente continua a gerar incerteza sobre os mercados energéticos. As cadeias globais de abastecimento permanecem vulneráveis. A inflação ainda não desapareceu completamente das economias desenvolvidas. As tensões comerciais entre grandes blocos económicos mantêm-se. A Europa continua confrontada com desafios demográficos e problemas de competitividade.
Apesar disso, Portugal continua a apresentar crescimento económico positivo, desemprego relativamente baixo, investimento em curso e uma trajetória descendente da dívida pública.
Há apenas dez ou quinze anos, um cenário internacional semelhante teria provocado impactos muito mais severos na economia portuguesa.
E esta é provavelmente a notícia mais importante que muitos não estão a valorizar.
Portugal mudou.
Mudou de forma gradual, sem grandes anúncios e sem proclamações grandiosas. Mas mudou.
Durante décadas, a economia portuguesa viveu sob o peso de vulnerabilidades estruturais que limitavam a sua capacidade de resposta a qualquer crise internacional. Dependíamos fortemente da energia importada. O nível de endividamento era elevado. As finanças públicas eram frequentemente apontadas como um fator de risco. A confiança dos mercados internacionais oscilava ao sabor de cada turbulência externa.
Hoje a realidade é diferente.
Portugal continua a ter desafios importantes, mas chega a esta nova fase da economia global numa posição mais sólida.
O próprio Banco de Portugal destaca um aspeto particularmente relevante: o país reduziu a sua dependência energética e aumentou significativamente o peso das energias renováveis.
Pode parecer um detalhe técnico.
Não é.
A energia tornou-se um dos principais fatores estratégicos da economia moderna. Basta observar o que está a acontecer com os centros de dados, a inteligência artificial, a indústria tecnológica ou os processos de reindustrialização que vários países europeus procuram desenvolver.
Quem controla energia competitiva possui uma vantagem económica crescente.
E Portugal encontra-se hoje numa posição muito mais favorável do que muitos imaginam.
Ao mesmo tempo, existe outro indicador que merece atenção.
A dívida pública.
Durante anos, Portugal foi frequentemente citado nos relatórios internacionais como um dos países mais vulneráveis da Europa devido ao peso da sua dívida.
Hoje, segundo as projeções do Banco de Portugal, a dívida pública deverá cair para cerca de 79,5% do PIB até 2028, ficando abaixo da média da Zona Euro.
Este facto tem uma importância que vai muito além da contabilidade pública.
Significa maior credibilidade junto dos investidores.
Significa menor exposição a crises financeiras.
Significa maior capacidade para responder a futuras dificuldades económicas.
Significa, acima de tudo, mais liberdade de decisão.
Os países excessivamente endividados vivem permanentemente condicionados pelos mercados financeiros. Os países financeiramente mais robustos possuem maior margem para definir o seu próprio futuro.
Portugal está a aproximar-se dessa posição.
Mas talvez a transformação mais relevante seja outra.
A economia portuguesa começa lentamente a mudar a natureza do seu crescimento.
Durante muitos anos dependemos excessivamente de fatores conjunturais. Turismo. Consumo. Ciclos favoráveis da economia internacional. Taxas de juro reduzidas.
Tudo isso continua a ser importante.
Mas o debate começa finalmente a deslocar-se para uma palavra que durante décadas esteve ausente da conversa económica portuguesa: produtividade.
O Banco de Portugal refere que os ganhos de produtividade deverão assumir um papel crescente nos próximos anos, ajudando a compensar o impacto de uma população mais envelhecida e de um menor crescimento demográfico.
Esta é uma mudança fundamental.
Porque os países não enriquecem apenas porque trabalham mais.
Enriquecem porque produzem mais valor.
E produzir mais valor exige investimento, tecnologia, inovação, qualificação e capacidade de gestão.
Curiosamente, é precisamente aqui que várias tendências globais começam a favorecer Portugal.
Temos universidades que produzem talento reconhecido internacionalmente.
Temos empresas tecnológicas em crescimento.
Temos projetos ligados à inteligência artificial.
Temos investimentos relevantes em centros de dados.
Temos uma posição geográfica cada vez mais valorizada pela conectividade digital.
Temos energia renovável.
Temos qualidade de vida capaz de atrair profissionais internacionais.
Nada disto garante sucesso automático.
Mas cria condições que simplesmente não existiam há duas décadas.
Naturalmente, continuam a existir desafios.
A habitação permanece uma preocupação séria.
A produtividade continua abaixo da média dos países mais desenvolvidos.
A administração pública necessita de maior eficiência.
A justiça continua lenta.
O país continua a perder parte do talento que forma.
Ignorar estes problemas seria um erro.
Mas ignorar os progressos realizados também seria.
Por vezes, Portugal parece sofrer de um fenómeno curioso.
Tem dificuldade em reconhecer as suas próprias melhorias.
O debate público tende frequentemente a concentrar-se apenas naquilo que falta fazer.
E existe muito por fazer.
Mas também existe muito que já foi feito.
Quando observamos apenas os problemas, corremos o risco de ignorar a evolução.
E quando ignoramos a evolução, tornamo-nos incapazes de perceber as oportunidades que surgem.
O relatório do Banco de Portugal não descreve uma economia perfeita.
Também não descreve uma economia em aceleração.
Descreve algo potencialmente mais importante.
Uma economia mais resiliente.
Uma economia que aprendeu algumas lições das crises passadas.
Uma economia menos vulnerável aos choques externos.
Uma economia que continua a crescer mesmo quando o contexto internacional se torna mais difícil.
Num mundo cada vez mais instável, talvez seja precisamente essa a característica mais valiosa.
Porque crescer rapidamente durante períodos favoráveis é relativamente fácil.
Continuar a avançar quando o mundo desacelera é que distingue os países preparados dos países dependentes da sorte.
E talvez seja essa a verdadeira mudança que está a acontecer em Portugal.
Não é uma mudança de velocidade.
É uma mudança de resistência.
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