Portugal e a nova economia dos dados: quando o investimento deixa de ser promessa e passa a ser realidade
Durante décadas, Portugal foi conhecido por três coisas principais aos olhos de muitos investidores internacionais: turismo, clima e qualidade de vida. Nada disso desapareceu. Continua a ser uma vantagem competitiva importante. Mas quem continua a olhar para o país apenas através dessa perspetiva está a perder uma das transformações económicas mais relevantes da Europa.
Nas últimas semanas surgiram várias notícias que, quando analisadas em conjunto, revelam uma mudança profunda na posição de Portugal dentro da economia global. O anúncio da Nscale para instalar mais de 66 mil GPUs NVIDIA Rubin no campus de dados de Sines, o reforço das operações de inteligência artificial da CGI em Portugal, a expansão da DXC Technology e o crescimento contínuo do setor tecnológico mostram uma realidade que já não pode ser ignorada: Portugal está a emergir como uma plataforma estratégica para a economia digital europeia.
O caso de Sines é particularmente revelador. Durante muitos anos, a cidade foi associada ao porto, à energia e à indústria pesada. Hoje, começa a assumir um novo papel. Está a posicionar-se como uma das portas de entrada da inteligência artificial na Europa. Quando uma empresa internacional anuncia investimentos que ultrapassam centenas de milhões de euros em infraestruturas dedicadas à computação avançada, não estamos perante mais um centro de dados. Estamos perante uma infraestrutura crítica para a próxima geração de serviços digitais, inteligência artificial, computação científica e inovação tecnológica.
O mais interessante é perceber porque é que isto está a acontecer em Portugal.
Muitos acreditam que os data centers são apenas edifícios cheios de servidores. Na realidade, são infraestruturas altamente dependentes de três fatores fundamentais: energia, conectividade e estabilidade. E é precisamente aqui que Portugal começa a destacar-se.
Os dados da REN mostram que mais de 80% do consumo elétrico nacional já é abastecido por fontes renováveis em determinados períodos do ano. Isto significa que Portugal possui uma das matrizes energéticas mais limpas da Europa, algo que se tornou um fator decisivo para as empresas tecnológicas globais. Ao mesmo tempo, a localização atlântica permite a ligação direta através de cabos submarinos aos Estados Unidos, à América Latina e a África. Num mundo onde os dados são o novo petróleo, a geografia voltou a ser importante.
Durante anos ouvimos falar de soberania energética. Hoje começa a surgir outro conceito igualmente importante: soberania digital. E a verdade é que a Europa enfrenta um desafio enorme nesta área. A inteligência artificial exige capacidade computacional em escala, energia abundante e infraestruturas resilientes. O modelo que está a emergir aponta para alguns grandes polos de computação distribuídos pelo continente, e Portugal começa a aparecer como um desses polos naturais.
Mas esta transformação vai muito além dos data centers.
Quando a CGI escolhe Portugal para criar um Centro de Excelência em Inteligência Artificial, ou quando a DXC reforça operações com centenas de profissionais altamente
qualificados, o que está verdadeiramente a acontecer é a criação de um ecossistema. E os ecossistemas são muito mais valiosos do que projetos isolados. Porque atraem talento, geram conhecimento, criam inovação e produzem exportações de elevado valor acrescentado.
Este é talvez o aspeto menos compreendido do debate económico nacional. Muitas vezes discute-se apenas o investimento inicial, o terreno ocupado ou a energia consumida. Mas o verdadeiro impacto está nos serviços que serão prestados a partir de Portugal durante décadas. Está na faturação associada à computação, aos serviços de cloud, à inteligência artificial, à cibersegurança, à engenharia de software e aos milhares de empregos qualificados que orbitam em torno destas infraestruturas.
É precisamente aqui que o impacto no PIB se torna relevante. Ao contrário de atividades de menor valor acrescentado, a economia digital gera receitas recorrentes, exportações de serviços e capacidade de retenção de talento. E para um país que durante décadas viu partir muitos dos seus profissionais mais qualificados, este é um fator que não pode ser ignorado.
Naturalmente, nem tudo está garantido.
Portugal continua a enfrentar desafios significativos. O acesso à rede elétrica, a velocidade dos licenciamentos, a burocracia administrativa e a necessidade de formar mais profissionais especializados serão determinantes para o sucesso desta estratégia. A concorrência não está parada. Espanha, os países nórdicos e várias regiões da Europa de Leste estão igualmente a competir por estes investimentos.
Mas talvez pela primeira vez em muitos anos, Portugal não esteja apenas a reagir às tendências globais. Está a posicionar-se para participar nelas.
O mais importante é perceber que esta transformação não acontece por acaso. É o resultado da combinação entre investimento em energias renováveis, localização geográfica privilegiada, conectividade internacional, estabilidade institucional e talento qualificado. São fatores que demoraram anos a construir e que agora começam a produzir resultados visíveis.
Durante muito tempo exportámos sol, praias e hospitalidade. Hoje começamos também a exportar capacidade computacional, conhecimento, serviços digitais e inovação tecnológica.
E essa poderá ser uma das mudanças económicas mais importantes da história recente do país.
Porque no final, o verdadeiro valor não está apenas nos edifícios que estão a ser construídos em Sines ou nos centros de excelência que estão a abrir em Lisboa. Está naquilo que eles representam.
Representam uma economia que deixa gradualmente de depender apenas do turismo para passar a participar na criação da infraestrutura que vai suportar a inteligência artificial, os dados e a competitividade europeia nas próximas décadas.
Portugal continua a ter praias e futebol. Felizmente.
Mas hoje já oferece muito mais do que isso ao mundo.
Economia, Imobiliario, Luxury Portfolio International, LeadingRE