O futuro de Portugal pode estar novamente no mar. Mas desta vez é diferente.
Durante décadas, quando se falava da economia do mar em Portugal, a conversa concentrava-se quase sempre nos mesmos temas. Pescas, portos, transporte marítimo, turismo náutico ou aquacultura. Tudo áreas importantes, sem dúvida, mas que representam apenas uma parte daquilo que o oceano poderá significar para a economia portuguesa nas próximas décadas.
Ao acompanhar as conclusões e os projetos apresentados no Oeiras Blue Tech Ocean Forum 2026, fiquei com a sensação de que estamos perante uma mudança muito mais profunda. Talvez uma das mais importantes para o futuro económico do país e, curiosamente, uma das menos discutidas fora dos círculos especializados.
O mar está a deixar de ser apenas um recurso.
Está a tornar-se uma infraestrutura estratégica.
Num mundo cada vez mais dependente de dados, energia, tecnologia e segurança, o oceano assume uma relevância que vai muito além da economia tradicional. Os cabos submarinos transportam a esmagadora maioria das comunicações globais. Os sistemas de observação oceânica produzem informação crítica para a meteorologia, defesa, clima e gestão de recursos. Os veículos autónomos começam a transformar a monitorização do mar profundo. A recolha e tratamento de dados oceânicos tornam-se cada vez mais importantes para governos, empresas e instituições científicas.
Portugal encontra-se numa posição privilegiada para participar nesta transformação.
Não apenas pela sua localização geográfica.
Mas também porque começa finalmente a construir um verdadeiro ecossistema de inovação ligado ao Atlântico. Os Hubs Azuis que estão a ser desenvolvidos em Leixões, Aveiro, Peniche, Oeiras e Olhão representam muito mais do que centros de investigação. Representam uma rede nacional de conhecimento, tecnologia e experimentação aplicada ao oceano.
E aqui está talvez a maior novidade.
Durante muitos anos produzimos conhecimento científico que nem sempre chegava à economia. Agora começa a surgir uma lógica diferente. A investigação passa a estar ligada à criação de empresas, ao desenvolvimento de tecnologia, à atração de investimento e à construção de novos mercados. O objetivo deixa de ser apenas estudar o oceano. Passa a ser criar valor económico a partir desse conhecimento.
É particularmente interessante observar que muitos dos projetos apresentados envolvem áreas que estarão no centro da economia global nos próximos anos. Robótica submarina, sistemas autónomos, biotecnologia marinha, monitorização ambiental, dados oceânicos, inteligência artificial aplicada ao mar e tecnologias de observação em tempo real.
Quando juntamos estas iniciativas à crescente importância dos cabos submarinos, aos investimentos em centros de dados, à transição energética e ao papel estratégico do Atlântico, começamos a perceber que a economia azul já não é apenas uma economia do mar.
É uma economia de conhecimento.
Uma economia de tecnologia.
Uma economia de dados.
Uma economia de segurança.
Uma economia de soberania.
Por isso considero particularmente relevante a aposta que está a ser feita através dos Hubs Azuis e dos instrumentos de financiamento especializados. O envolvimento do Banco Português de Fomento, dos centros de investigação, das universidades e das empresas demonstra que começa a existir uma visão mais integrada para este setor.
Naturalmente, existem desafios.
Transformar investigação em negócio continua a ser uma das maiores dificuldades da economia portuguesa. Atrair capital privado para projetos tecnológicos exige escala e ambição. E a concorrência internacional será intensa.
Mas, pela primeira vez em muitos anos, sinto que Portugal está a olhar para o mar não apenas como uma herança histórica, mas como uma plataforma para construir o futuro.
Durante séculos, o oceano foi a nossa ligação ao mundo.
Hoje pode voltar a desempenhar esse papel.
Mas desta vez não através das rotas comerciais dos Descobrimentos.
Através dos dados.
Da tecnologia.
Da energia.
Da inovação.
E talvez seja precisamente por isso que a economia azul merece muito mais atenção do que normalmente recebe.
Porque aquilo que está a ser construído não é apenas uma estratégia para o mar.
É uma estratégia para posicionar Portugal numa das áreas mais promissoras da economia global do século XXI.
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