Quando a inovação deixa o laboratório e começa a criar valor real
Há iniciativas que parecem apenas mais um programa dentro do ecossistema tecnológico, mas que na verdade representam mudanças estruturais. O lançamento do Tech Foundry Portugal – Deep Tech Edition enquadra-se precisamente nesse grupo. Não é apenas mais uma aceleração de startups. É uma tentativa clara de resolver um dos maiores desafios históricos da inovação em Portugal: transformar conhecimento científico em impacto económico.
Portugal já fez um percurso muito relevante na última década. Criou talento, atraiu centros tecnológicos, desenvolveu universidades com reconhecimento internacional e construiu um ecossistema de startups cada vez mais visível. Mas existe uma falha que continua evidente. A ligação entre investigação e mercado continua a ser frágil, especialmente nas áreas mais avançadas.
É exatamente aqui que o conceito de deep tech ganha relevância. Falamos de setores como inteligência artificial, biotecnologia, computação avançada, robótica, novos materiais ou espaço. Áreas onde o conhecimento técnico é profundo, o tempo de desenvolvimento é mais longo e o risco é naturalmente maior. Mas são também estas áreas que definem as economias mais avançadas e criam valor sustentável no longo prazo.
O Tech Foundry Portugal surge como uma resposta estruturada a esta realidade. Ao combinar aceleração intensiva, acesso a uma rede global de investidores especializados e ligação direta a instrumentos de financiamento, o programa tenta fazer algo que raramente foi conseguido de forma integrada em Portugal. Criar um percurso completo, desde a validação tecnológica até à entrada no mercado.
Este ponto é crítico. Durante muitos anos, o ecossistema funcionou de forma fragmentada. Existia talento, existiam ideias, existiam programas de apoio, mas faltava continuidade. Faltava um caminho claro que acompanhasse os projetos desde o laboratório até à sua escala comercial. E é precisamente essa lacuna que este tipo de iniciativa tenta preencher.
Outro elemento relevante é a ambição internacional. A parceria com uma rede global como a Hello Tomorrow demonstra que não se trata apenas de desenvolver soluções para o mercado local. A inovação, hoje, nasce global. E quem não integra essa dimensão desde o início dificilmente consegue competir.
Ao mesmo tempo, a ligação ao financiamento através do Banco Português de Fomento traz uma componente prática que muitas vezes falha nestes programas. Não basta acelerar ideias. É necessário dar-lhes condições para crescer. E isso implica capital, mas também confiança por parte dos investidores.
Este tipo de iniciativa revela algo mais profundo. Portugal começa a perceber que o seu posicionamento futuro não depende apenas da atração de investimento estrangeiro ou de setores tradicionais. Depende, cada vez mais, da capacidade de criar tecnologia própria e de integrar cadeias de valor globais mais sofisticadas.
Ainda estamos numa fase inicial deste processo. Mas é precisamente nestes momentos que se constroem as bases para o que vem a seguir. Porque a diferença entre um país que acompanha e um país que lidera está, muitas vezes, na forma como consegue transformar conhecimento em valor.
E é exatamente isso que está agora em jogo.
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