Portugal já não está à porta da economia digital. Está a entrar nela.
Durante muitos anos, quando se falava de investimento estrangeiro em Portugal, a conversa girava quase sempre em torno do turismo, do imobiliário, das exportações tradicionais ou da capacidade do país atrair empresas de serviços. Eram áreas importantes e continuam a ser. Mas tenho a sensação de que estamos a assistir ao nascimento de uma nova fase da economia portuguesa, uma fase que pode vir a ser recordada daqui a uma década como o momento em que Portugal deixou de ser apenas um utilizador de tecnologia para passar a fazer parte da infraestrutura que alimenta a economia digital europeia.
As notícias que surgiram nas últimas semanas ajudam a perceber a dimensão do que está a acontecer. A chegada de milhares de processadores Nvidia de última geração para Sines, destinados a suportar sistemas de inteligência artificial da Microsoft, não é apenas mais um investimento tecnológico. É um acontecimento suficientemente relevante para ter impacto direto nos números do investimento nacional e até no próprio crescimento do PIB português.
Quando um conjunto de equipamentos tecnológicos consegue influenciar os indicadores económicos de um país, isso significa que estamos perante algo muito maior do que uma simples operação empresarial. Estamos perante a construção de uma nova infraestrutura económica, semelhante ao que aconteceu noutras épocas com os portos, os caminhos de ferro, as autoestradas ou as redes elétricas.
Durante décadas, Portugal viveu relativamente afastado dos grandes centros tecnológicos globais. Produzimos talento, formámos engenheiros de excelência e criámos empresas inovadoras, mas raramente aparecíamos no mapa dos grandes investimentos tecnológicos estratégicos. Hoje a realidade começa a ser diferente.
Sines tornou-se um dos exemplos mais claros dessa transformação. A localização geográfica, a proximidade aos cabos submarinos, a disponibilidade de energia renovável e a capacidade de crescimento fizeram daquela região um dos pontos mais interessantes da Europa para o desenvolvimento de centros de dados de nova geração. Não é por acaso que empresas internacionais estão a apostar milhares de milhões de euros naquele território.
Mas aquilo que mais me chama a atenção não são os edifícios. São os efeitos indiretos que começam a surgir à sua volta.
Sempre que um grande centro de dados é desenvolvido, não chega sozinho. Atrai empresas de tecnologia, fornecedores de serviços, especialistas em energia, operadores de telecomunicações, empresas de engenharia, startups ligadas à inteligência artificial e centros de investigação. Cria emprego qualificado. Gera procura por novas competências. Obriga universidades e empresas a trabalhar mais próximas. E cria algo que Portugal tem procurado há décadas: escala tecnológica.
É precisamente aqui que entra uma das maiores oportunidades para o país.
Durante muitos anos discutimos como aumentar a produtividade da economia portuguesa. Falámos da necessidade de criar mais valor acrescentado, de reduzir a dependência de setores de menor margem e de aproximar Portugal das economias mais
avançadas da Europa. A inteligência artificial e a infraestrutura digital podem representar uma parte importante dessa resposta.
Quando vemos a Microsoft comprometer-se com investimentos de milhares de milhões de dólares associados à capacidade computacional em Portugal, quando assistimos à chegada dos mais avançados processadores de inteligência artificial disponíveis no mercado ou quando observamos empresas internacionais a escolher Sines para instalar capacidade estratégica para toda a Europa, percebemos que Portugal está a ganhar relevância num setor que será central para a economia global nas próximas décadas.
Existe também outro elemento diferenciador que muitas vezes passa despercebido.
Ao contrário de muitos países europeus, Portugal possui uma combinação particularmente interessante entre infraestrutura digital e energia renovável. A inteligência artificial exige enormes quantidades de eletricidade. Os centros de dados do futuro serão cada vez mais avaliados não apenas pela sua capacidade computacional, mas também pela forma como consomem energia. É aqui que a parceria entre a Start Campus e a EDP ganha especial importância. Não estamos apenas a falar de tecnologia. Estamos a falar da ligação entre a transição digital e a transição energética.
Num mundo onde a sustentabilidade deixou de ser opcional e passou a ser um requisito competitivo, Portugal pode transformar uma das suas maiores vantagens estruturais numa ferramenta de atração de investimento. A energia renovável não é apenas uma conquista ambiental. É também um ativo económico.
Naturalmente, nem tudo são oportunidades. Existem desafios importantes que não podem ser ignorados. O crescimento da procura energética exigirá reforço das infraestruturas. Os processos de licenciamento terão de ser mais rápidos e previsíveis. A formação de talento terá de acompanhar o ritmo da procura. E será fundamental garantir que este crescimento beneficia a economia nacional e não apenas os investidores internacionais.
Mas talvez pela primeira vez em muitos anos estejamos perante um desafio positivo. Não estamos a discutir como atrair investimento. Estamos a discutir como gerir uma oportunidade que já começou a chegar.
Ao longo dos últimos anos escrevi várias vezes sobre energia, centros de dados, inteligência artificial e a nova economia digital. Muitas dessas tendências pareciam ainda relativamente distantes para uma grande parte dos portugueses. Hoje deixaram de ser conceitos abstratos. Estão a traduzir-se em investimento real, em infraestruturas concretas e em impacto económico mensurável.
A verdade é que a economia global está a mudar rapidamente. Os países que conseguirem posicionar-se nas cadeias de valor da inteligência artificial, da computação avançada e da infraestrutura digital terão vantagens competitivas significativas nas próximas décadas. Os restantes correrão o risco de ficar apenas como consumidores dessa tecnologia.
Portugal tem hoje uma oportunidade rara. Não será líder pela dimensão do seu mercado. Nunca será. Mas pode ser líder pelo posicionamento estratégico, pela energia renovável, pela conectividade internacional, pela estabilidade e pelo talento que consegue produzir.
Os chips que chegaram a Sines não são apenas componentes eletrónicos. Representam uma mudança de ciclo. Representam a entrada de Portugal numa economia onde os dados, a computação e a inteligência artificial serão tão importantes como foram o petróleo, as estradas ou as fábricas nas gerações anteriores.
E talvez seja precisamente por isso que estas notícias merecem muito mais atenção do que aquela que normalmente recebem. Porque aquilo que está a acontecer em Sines não é apenas um investimento tecnológico.
É um vislumbre do Portugal que pode emergir na próxima década.
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