Portugal Mudou Mais do que Pensamos
Há leituras que nos chamam a atenção por uma notícia específica. Outras tornam-se interessantes porque, quando juntamos vários números e tendências, começamos a ver uma realidade que nem sempre é evidente no debate diário.
Foi essa a sensação que tive ao ler a edição de setembro da revista Portugalglobal, da AICEP. Mais do que qualquer dado isolado, aquilo que me chamou a atenção foi a imagem de uma economia portuguesa bastante diferente daquela que ainda muitas vezes usamos para descrever o país.
Não significa que os nossos problemas tenham desaparecido. Portugal continua a enfrentar dificuldades conhecidas na produtividade, nos salários, na dimensão das empresas, na habitação, na burocracia e na capacidade de execução. Mas concentrarmo-nos exclusivamente nessas fragilidades também pode impedir-nos de perceber uma transformação que está a acontecer diante de nós.
Uma economia muito mais aberta ao mundo
Em 2007, Portugal exportava cerca de 54,7 mil milhões de euros em bens e serviços. Em 2025, esse valor atingiu 133,9 mil milhões. As exportações passaram de 31,2% do PIB para 43,7%.
Também o investimento estrangeiro ganhou outra dimensão. No final de 2025, o stock de investimento direto estrangeiro em Portugal atingia 213,7 mil milhões de euros, equivalente a cerca de 70% do PIB.
Estes números contam uma história importante. Em menos de duas décadas, Portugal tornou-se uma economia muito mais internacional.
Parte desta transformação nasceu, curiosamente, de um dos períodos mais difíceis da nossa história económica recente. A crise financeira e a crise da dívida obrigaram muitas empresas portuguesas a procurar mercados externos porque o mercado interno praticamente desapareceu. O que começou como necessidade acabou, em muitos casos, por transformar definitivamente a cultura empresarial.
Hoje existem milhares de empresas portuguesas para as quais o mercado já não é Portugal. É o mundo.
Mas não estamos apenas a exportar mais
Este talvez seja o ponto que mais me chamou a atenção.
Em 2025, cerca de 44% das exportações portuguesas de bens correspondiam já a produtos classificados como de média e alta tecnologia, num valor próximo de 35 mil milhões de euros. Desde 2021, estas exportações cresceram, em média, 7,5% por ano.
Automóveis e componentes, equipamentos elétricos, eletrónica, instrumentos de precisão, tecnologias de informação e produtos farmacêuticos fazem hoje parte significativa daquilo que Portugal vende ao mundo.
Isto não significa que os setores tradicionais estejam a desaparecer. Pelo contrário. Têxtil, calçado, mobiliário, cerâmica, agroalimentar ou materiais de construção continuam a ser fundamentais. Muitos deles fizeram, aliás, uma transformação extraordinária, acrescentando design, tecnologia, sustentabilidade, marcas e serviços à capacidade industrial que já possuíam.
O que está a acontecer é algo diferente. A economia portuguesa está a tornar-se mais complexa.
Ao Portugal tradicional juntou-se progressivamente um Portugal de engenharia, software, saúde, mobilidade, aeronáutica, espaço, defesa, energia, inteligência artificial e serviços tecnológicos.
Existe uma indústria portuguesa que conhecemos pouco
Outro número da revista é particularmente revelador.
A metalomecânica e engenharia representam cerca de 25 mil milhões de euros de exportações, mais de 200 mil trabalhadores e presença em mais de 200 mercados. A mobilidade acrescenta uma enorme cadeia industrial ligada aos automóveis, componentes, veículos de duas rodas, ferrovia e sistemas inteligentes de transporte.
Quando falamos da economia portuguesa, porém, raramente é esta a imagem que transmitimos.
Portugal é frequentemente apresentado através do turismo, do imobiliário, do vinho, do calçado ou, mais recentemente, das startups. Todos são importantes. Mas entre a economia tradicional e a nova economia digital existe uma enorme base industrial que emprega milhares de pessoas, exporta dezenas de milhares de milhões de euros e está integrada nas cadeias de valor de algumas das maiores empresas internacionais.
Talvez precisemos de conhecer melhor esse Portugal.
Deixar de competir apenas pelo preço
Existe depois uma segunda transformação que considero ainda mais importante.
Durante décadas, uma parte relevante da proposta portuguesa para atrair investimento assentava numa ideia relativamente simples: Portugal oferecia uma localização europeia com custos competitivos.
Essa vantagem ajudou a industrializar e internacionalizar a economia e continua a ter importância. Mas dificilmente poderá ser a estratégia económica para as próximas décadas.
Se queremos salários mais elevados, não podemos construir a nossa competitividade sobre salários baixos.
Se queremos aumentar a produtividade, precisamos de produzir coisas com maior valor.
E se queremos atrair melhor investimento, não basta perguntar quanto capital entra em Portugal. Precisamos de perguntar que tipo de investimento estamos a captar e quanto valor permanece no país.
Uma unidade industrial é importante. Mas torna-se muito mais interessante se à produção acrescentarmos engenharia, investigação, desenvolvimento de produto e fornecedores nacionais.
Um centro tecnológico é importante. Mas terá um impacto ainda maior se desenvolver propriedade intelectual, formar pessoas, criar empresas à sua volta e trouxer capacidade de decisão.
O objetivo deve ser subir progressivamente dentro das cadeias internacionais de valor.
A próxima competição será muito mais exigente
Portugal tem algumas vantagens interessantes para esta nova economia: localização atlântica, integração europeia, energia renovável, infraestruturas, universidades, capacidade de engenharia, estabilidade e uma geração de profissionais cada vez mais internacional.
Mas possuir vantagens não significa automaticamente saber aproveitá-las.
A competição pelo investimento está a mudar rapidamente. Um projeto industrial, tecnológico ou ligado à inteligência artificial pode exigir enormes quantidades de energia, ligações à rede elétrica, fibra, terrenos preparados, trabalhadores especializados e processos de licenciamento rápidos.
É aqui que começa uma das maiores diferenças entre ter potencial e conseguir transformá-lo em economia real.
Podemos ter excelentes engenheiros, mas precisamos de os conseguir reter. Podemos produzir energia renovável, mas precisamos de redes capazes de a transportar. Podemos ter localização estratégica, mas precisamos de infraestruturas. Podemos querer grandes investimentos, mas temos de conseguir decidir e licenciar dentro de prazos compatíveis com a competição internacional.
A qualidade da execução será cada vez mais uma política económica por si própria.
O verdadeiro objetivo são os salários
No final, toda esta discussão sobre exportações, investimento, tecnologia e indústria deve servir um objetivo bastante simples: criar uma economia capaz de pagar melhores salários.
Os salários não aumentam de forma sustentável apenas porque desejamos que aumentem. Precisam de empresas mais produtivas, trabalhadores mais qualificados, maior investimento e atividades económicas capazes de gerar mais valor por cada hora trabalhada.
É por isso que importa tanto aquilo que Portugal exporta, as empresas que consegue criar e o investimento que consegue atrair.
Quanto maior for o conhecimento, tecnologia, engenharia, propriedade intelectual e capacidade de decisão que conseguimos manter no país, maior será também a possibilidade de aumentar o valor criado por trabalhador.
Talvez precisemos de atualizar a imagem que temos de Portugal
Há uma tendência portuguesa para discutir o país através dos seus problemas. Alguns são graves e precisam urgentemente de soluções. Reconhecer aquilo que está a funcionar não os diminui.
Pelo contrário, ajuda-nos a perceber onde devemos insistir.
Portugal não é hoje a economia que era quando começou a crise financeira. Exportamos muito mais. Estamos presentes em mais mercados. A nossa indústria tornou-se mais sofisticada. Surgiram novos setores tecnológicos. Aumentou o investimento internacional e começámos a competir em atividades onde há vinte anos dificilmente imaginaríamos encontrar empresas portuguesas.
Ainda estamos longe de onde podemos chegar.
Mas talvez seja precisamente essa a conclusão mais interessante que retirei desta leitura.
Durante muitos anos perguntámos como Portugal poderia tornar-se uma economia mais internacional, tecnológica e produtiva. Parte dessa transformação já começou.
O desafio dos próximos anos já não é apenas mudar a economia portuguesa. É perceber a mudança que começou, acelerá-la e garantir que o valor criado por essa transformação permanece cada vez mais em Portugal.
Economia, Imobiliario, Luxury Portfolio International, LeadingRE