Ao longo dos últimos anos tenho acompanhado com particular atenção uma tendência que me parece cada vez mais evidente em Portugal. Durante muito tempo habituámo-nos a ouvir que o nosso maior ativo era o talento. Engenheiros, investigadores, programadores, gestores e empreendedores portugueses eram frequentemente recrutados por empresas internacionais ou procuravam oportunidades fora do país para desenvolver o seu potencial.
Felizmente, algo está a começar a mudar.
Portugal continua a exportar talento, mas começa também a criar projetos inovadores capazes de competir em setores altamente tecnológicos e exigentes. E talvez seja essa a verdadeira evolução da nossa economia. Não apenas formar pessoas qualificadas, mas criar empresas que transformam conhecimento em produtos, serviços e negócios com potencial internacional.
Recentemente escrevi sobre o desenvolvimento de soluções ligadas à mobilidade elétrica e ao futuro da aviação sustentável. Esta semana chamou-me a atenção outra iniciativa que, apesar de ter passado relativamente despercebida, merece ser destacada. Falo da TAPSi, uma plataforma TVDE criada por doutorandos da Universidade de Coimbra, que nasce com uma característica diferenciadora: opera exclusivamente com veículos elétricos.
À primeira vista, poderá parecer apenas mais uma aplicação de mobilidade. Mas olhando com mais atenção, representa algo muito mais interessante.
Enquanto muitas das grandes plataformas internacionais continuam a gerir processos de transição gradual para frotas elétricas, esta startup portuguesa tomou uma decisão diferente. Como nasceu agora, decidiu começar já no ponto onde muitos outros pretendem chegar daqui a vários anos. Em vez de adaptar um modelo antigo a uma nova realidade, construiu um modelo novo desde o primeiro dia.
Esta forma de pensar é particularmente relevante porque mostra uma característica que frequentemente associamos às startups mais inovadoras do mundo. A capacidade de olhar para um problema sem estar condicionada pelo passado.
Mas o que mais me impressiona não é apenas a aposta na eletrificação. É o facto de esta iniciativa surgir em Coimbra, dentro de um ambiente académico, criada por investigadores que decidiram transformar conhecimento em atividade económica.
Durante muitos anos discutimos a necessidade de aproximar universidades e empresas. Falámos da importância de transformar investigação em inovação aplicada. Falámos da necessidade de criar ecossistemas onde o conhecimento produzido dentro das instituições académicas pudesse chegar ao mercado.
Quando vemos projetos como este, percebemos que essa transformação está efetivamente a acontecer.
Ao mesmo tempo, esta iniciativa encaixa numa tendência mais ampla que Portugal pode aproveitar nos próximos anos. O país tem vindo a consolidar uma posição relevante nas áreas da energia renovável, mobilidade sustentável, inteligência artificial, centros de dados e tecnologia. São setores que partilham uma característica comum: procuram eficiência, sustentabilidade e inovação.
É precisamente neste cruzamento que surgem as maiores oportunidades.
A TAPSi não será certamente a última empresa portuguesa a nascer com esta lógica. Pelo contrário. Tudo indica que veremos cada vez mais projetos desenvolvidos localmente, com tecnologia nacional, preparados para responder a desafios globais.
Mais importante ainda, este tipo de iniciativas ajuda a mudar a narrativa sobre Portugal. Durante demasiado tempo fomos vistos como um país capaz de produzir talento para os outros. Hoje começamos a demonstrar que também conseguimos criar empresas, desenvolver tecnologia e construir soluções competitivas a partir do nosso próprio conhecimento.
Naturalmente, nem todas as startups terão sucesso. Faz parte da realidade do empreendedorismo. Mas aquilo que verdadeiramente importa é a capacidade de continuar a criar, experimentar e inovar.
Porque quando investigadores portugueses criam plataformas tecnológicas, quando universidades geram empresas e quando investidores internacionais decidem apostar nesses projetos, estamos perante algo mais importante do que uma simples ronda de investimento.
Estamos a assistir à construção de uma economia baseada em conhecimento, inovação e valor acrescentado.
E essa talvez seja uma das melhores notícias para o futuro de Portugal.
 
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