Há movimentos no mercado que valem mais pelo que revelam do que pelos números que apresentam. A crescente procura de casas de luxo em Portugal por compradores norte americanos é um desses sinais. Não é apenas uma questão imobiliária. É um reflexo direto de como o mundo olha para Portugal num contexto internacional cada vez mais instável, fragmentado e imprevisível.
Muito se tem falado do chamado efeito Trump e da forma como a atual conjuntura política nos Estados Unidos está a influenciar decisões de investimento e de vida. Mas reduzir este fenómeno a uma reação política seria simplificar demasiado uma tendência mais profunda. O que está em causa é a perceção de risco. Quando essa perceção aumenta, o capital e as famílias com capacidade de escolha procuram estabilidade, previsibilidade e qualidade de vida. E é aqui que Portugal surge com uma clareza impressionante.
Mesmo sem instrumentos como os vistos gold ou benefícios fiscais extraordinários, o país continua a atrair interesse consistente no segmento premium. Lisboa, Porto e Algarve mantêm se no topo das preferências, mas começam a surgir sinais claros de diversificação geográfica. Regiões menos óbvias, ilhas e zonas com menor densidade urbana entram no radar de quem procura mais do que um ativo financeiro. Procuram um lugar para viver, para passar tempo, para criar raízes ou simplesmente para ter uma opção segura fora de mercados mais tensos.
Ao meu ver, este comportamento diz muito sobre o posicionamento internacional de Portugal. O imobiliário de luxo é, historicamente, um dos primeiros setores a reagir a mudanças geopolíticas. Funciona como um barómetro silencioso da confiança. Quando investidores de longo prazo escolhem um país, não o fazem apenas pelo retorno esperado. Fazem no pela segurança jurídica, pela estabilidade social, pela infraestrutura, pela capacidade de integração e pela perceção de futuro.
Portugal reúne hoje um conjunto raro de fatores. É um país seguro, politicamente estável, integrado na União Europeia, com boa conectividade internacional, qualidade de vida reconhecida e uma imagem externa cada vez mais associada a inovação, sustentabilidade e talento. Isto não acontece por acaso. É o resultado acumulado de décadas de abertura ao exterior, de investimento em infraestruturas e de uma diplomacia económica que, com erros e acertos, tem sabido posicionar o país.
Há também um ponto importante que muitas vezes passa despercebido. Esta procura não é especulativa no sentido clássico. Não estamos a falar apenas de compras rápidas para revenda. Estamos a falar de famílias, empreendedores e investidores que olham para Portugal como uma base europeia, um refúgio estratégico ou uma alternativa real de vida. Isso tem implicações profundas para o tipo de produto que o mercado oferece, para o planeamento urbano e para a forma como o país deve gerir este interesse.
O mundo está a mudar rapidamente. A volatilidade deixou de ser exceção e passou a ser regra. Neste contexto, Portugal beneficia de algo cada vez mais raro. Confiança. O imobiliário de luxo vindo dos Estados Unidos é apenas uma das manifestações visíveis dessa confiança. Cabe agora às empresas, aos decisores e ao próprio país perceberem que o mundo está a olhar. E agir à altura dessa atenção.
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