O futuro já chegou. Portugal também?
Há uma ideia que me acompanha há vários anos sempre que observo a economia portuguesa, os ciclos políticos, as decisões públicas e até muitas das discussões que dominam o espaço mediático. Portugal tem uma extraordinária capacidade para identificar oportunidades. O problema surge quando chega o momento de as executar.
Vivemos numa época de transformação global comparável a poucas outras na história recente. A inteligência artificial está a alterar a forma como trabalhamos, produzimos e competimos. A energia tornou-se um dos ativos estratégicos mais importantes do planeta. Os centros de dados estão a redesenhar os mapas económicos. A competição pelo talento tornou-se global. A sustentabilidade deixou de ser apenas uma questão ambiental para passar a ser um fator de investimento. E a reorganização das cadeias de abastecimento está a criar novas oportunidades para países capazes de responder rapidamente.
Perante este cenário, Portugal deveria estar particularmente otimista.
Temos uma das maiores capacidades de produção de energia renovável da Europa. Temos localização atlântica estratégica. Temos universidades reconhecidas internacionalmente. Temos qualidade de vida, estabilidade política e segurança. Temos talento. Temos uma crescente capacidade de atrair investimento estrangeiro. Temos condições para beneficiar da digitalização, da economia dos dados e da nova economia baseada no conhecimento.
Mas há um problema que continua a surgir repetidamente.
Enquanto o mundo acelera, Portugal continua muitas vezes a discutir.
Discutimos durante anos projetos que outros países executam em meses. Discutimos investimento antes de o compreender. Discutimos crescimento antes de percebermos quem o vai financiar. Discutimos riqueza antes de refletirmos sobre como a criar. E discutimos modernização enquanto mantemos estruturas administrativas, regulatórias e culturais desenhadas para uma realidade que já não existe.
Talvez seja por isso que existe um contraste tão evidente entre a forma como o país é visto por muitos investidores internacionais e a forma como frequentemente se vê a si próprio.
Quem observa Portugal de fora encontra um país competitivo, seguro, energeticamente bem posicionado e com potencial para atrair empresas e talento. Quem observa Portugal a partir de dentro encontra muitas vezes um país preso a uma narrativa de bloqueio permanente, onde parece existir sempre uma razão para explicar porque algo não pode avançar.
Naturalmente, os problemas existem. A habitação continua a ser um desafio. A produtividade continua abaixo do desejável. A administração pública necessita de modernização. O sistema judicial continua demasiado lento para as exigências da economia moderna. Tudo isto é verdade.
Mas também é verdade que muitos dos países que hoje admiramos não resolveram primeiro todos os seus problemas para depois crescerem. Cresceram precisamente porque decidiram avançar enquanto os resolviam.
É aqui que a discussão se torna mais interessante.
Durante demasiado tempo habituámo-nos a olhar para o crescimento económico com alguma desconfiança. Em certos setores da sociedade portuguesa continua a existir uma visão quase ideológica da economia, onde o investimento privado é frequentemente recebido com suspeita, o lucro é confundido com exploração e a criação de riqueza parece necessitar de constante justificação.
O resultado é uma cultura onde se discute exaustivamente a distribuição da riqueza, mas se fala muito menos sobre a sua criação.
E sem criação de riqueza não existe redistribuição possível.
Não existem melhores salários.
Não existem melhores serviços públicos.
Não existe investimento em educação.
Não existe investimento em saúde.
Não existe inovação.
Não existe competitividade.
Esta realidade torna-se particularmente relevante quando observamos aquilo que está a acontecer no mundo.
Os países que vão liderar as próximas décadas não serão necessariamente os maiores. Nem os que possuem mais recursos naturais. Serão aqueles que conseguirem atrair talento, energia, tecnologia e investimento. Serão aqueles que conseguirem criar ambientes favoráveis à inovação e ao empreendedorismo. Serão aqueles que compreenderem que a velocidade de execução passou a ser uma vantagem competitiva.
É precisamente por isso que temas como a inteligência artificial, os data centers, a energia renovável, os cabos submarinos, a investigação científica e a atração de talento internacional não deveriam ser assuntos de nicho. Deveriam estar no centro da estratégia nacional.
Porque representam aquilo que o mundo procura.
E porque Portugal tem condições para responder.
O caso dos data centers é um exemplo evidente. Há apenas alguns anos, poucos portugueses imaginariam que infraestruturas digitais poderiam tornar-se tão importantes como portos, aeroportos ou zonas industriais. Hoje sabemos que serão uma das bases da nova economia. E Portugal possui vantagens competitivas claras: energia renovável, conectividade internacional, estabilidade geopolítica e localização estratégica.
O mesmo acontece com a inteligência artificial.
Enquanto alguns continuam a encará-la apenas como uma ameaça ao emprego, os países mais avançados estão focados em algo diferente: como utilizar essa tecnologia para aumentar produtividade, criar novas empresas, desenvolver novos produtos e gerar mais valor económico.
Portugal deveria estar nessa discussão.
Não como espectador.
Mas como participante.
A mesma lógica aplica-se à energia. Durante décadas fomos vistos como um país dependente do exterior. Hoje estamos entre os países europeus com maior capacidade de produção renovável. Num mundo onde a energia é cada vez mais determinante para a competitividade industrial e tecnológica, esta vantagem pode ser decisiva.
Mas uma vantagem só é útil quando é utilizada.
E é precisamente aqui que regressamos ao principal desafio português.
A execução.
Porque o verdadeiro problema do país não é falta de potencial.
Também não é falta de talento.
Nem falta de recursos.
Nem falta de oportunidades.
O verdadeiro problema é a distância que continua a existir entre aquilo que sabemos que devemos fazer e aquilo que efetivamente fazemos.
Sabemos que precisamos de uma administração pública mais eficiente.
Sabemos que precisamos de licenciamentos mais rápidos.
Sabemos que precisamos de mais habitação.
Sabemos que precisamos de maior ligação entre universidades e empresas.
Sabemos que precisamos de reter talento.
Sabemos que precisamos de atrair investimento.
Sabemos que precisamos de aumentar produtividade.
Sabemos praticamente tudo aquilo que é necessário.
Mas continuamos demasiadas vezes presos à discussão permanente.
Entretanto, o mundo continua a avançar.
A competição global não abranda porque um país ainda está a debater uma decisão.
Os investidores não esperam indefinidamente.
O talento não espera indefinidamente.
As oportunidades também não.
Talvez por isso a questão mais importante para Portugal não seja económica, tecnológica ou energética.
Talvez seja cultural.
Será que estamos preparados para abandonar algumas das ideias, hábitos e bloqueios que pertencem ao século passado?
Será que estamos preparados para aceitar que a criação de riqueza é uma condição para melhorar a sociedade e não um obstáculo a ela?
Será que estamos preparados para competir num mundo onde a velocidade importa tanto como a qualidade?
Porque as tendências globais do século XXI parecem estar finalmente a favorecer Portugal.
A energia favorece-nos.
O talento favorece-nos.
A tecnologia favorece-nos.
A geografia favorece-nos.
A qualidade de vida favorece-nos.
O que ainda não sabemos é se Portugal conseguirá favorecer-se a si próprio.
E essa poderá ser a decisão mais importante das próximas décadas.
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